Este é, talvez, o assunto que mais exige cuidado ao ser escrito. As terapias assistidas por enteógenos como a ayahuasca e a psilocibina despertam esperança legítima e, na mesma medida, muita confusão. Tratá-las com seriedade significa recusar tanto o misticismo que promete milagres quanto a banalização que ignora os riscos. Significa falar de contexto, respaldo e segurança antes de falar de qualquer substância.
Do uso ancestral à pesquisa contemporânea
A ayahuasca tem séculos de uso ritual em contextos tradicionais e, no Brasil, seu uso religioso é reconhecido e regulamentado. A psilocibina, presente em certos cogumelos, vem sendo estudada por centros de pesquisa em universidades no mundo todo. Nada disso, porém, autoriza conclusões apressadas: pesquisa promissora não é sinônimo de tratamento aprovado para todos, e uso tradicional não é o mesmo que uso clínico. O que une esses mundos, quando há responsabilidade, é o enquadramento: o cuidado com quem, como, onde e com qual acompanhamento.
O que “respaldo institucional” significa aqui
Respaldo institucional não é um selo decorativo. É o conjunto de estruturas que fazem a diferença entre um cuidado sério e uma aventura. No Instituto, isso se traduz em amparo do IPEBH e da O.S.U., em uma equipe responsável e em um protocolo que define cada etapa. Quer dizer que há alguém respondendo pelo processo, que há critérios claros e que nada acontece de forma improvisada.
Segurança começa na triagem
O ponto mais importante, e o mais frequentemente ignorado por fora de um contexto sério, é este: nem todo mundo é candidato. Existem contraindicações reais, ligadas a condições de saúde física e mental, a determinadas medicações e a histórico pessoal e familiar. Por isso, o primeiro passo nunca é uma sessão: é uma avaliação individual e criteriosa, que pode concluir que este não é o caminho indicado para aquela pessoa naquele momento. Dizer “não” quando é preciso também é parte da segurança.
Segurança não é a ausência de risco. É reconhecer o risco e cercá-lo de preparo, avaliação e acompanhamento, do começo ao fim.
Preparação, ambiente e acompanhamento
Num contexto responsável, a experiência é apenas o centro de um processo muito maior, sustentado por três pilares:
- Preparação: entender o momento da pessoa, alinhar expectativas e construir vínculo antes de qualquer etapa;
- Ambiente e supervisão: um espaço seguro, com equipe presente e preparada para acolher o que surgir;
- Integração: o trabalho posterior, que transforma a experiência em mudança concreta e evita que ela vire um episódio solto.
Responsabilidade, não misticismo nem banalização
Enteógeno não é atalho, não é passe de mágica e não é uso recreativo. Dentro de um cuidado sério, é um recurso entre outros, usado apenas quando há indicação, dentro de um método de médio prazo e sob acompanhamento. É essa moldura (ética, legal e clínica) que separa uma proposta responsável de tudo aquilo de que se deve, com razão, desconfiar.


